Andando pelo Centro

Michel Edere

Levei um tempo para escrever este texto. Levei 35 anos para cuspir cada palavra de agora. Mas nada é novidade. Fragmentos dele foram expostos em poesias, em outros textos e músicas. Fragmentos dele estiveram e estão em papos com alguns pouco e bons. Talvez e nem sempre, tão poucos ou tão bons.

É que andando pelo centro descobri que ninguém é tão bom o bastante e que a maldade tem seu espaço cativo nos outdoors, banners e capas de facebook. Como sabemos, temos dificuldade de fazer propaganda do que é bom. Mas para o inferno com que é bom!

Andando pelo centro, descendo a Araguaia, lembrei-me de como e quando a vida se tornou arredia. De como me zanguei com ela. Lembrei que ali, entre a 3 e a Anhanguera, na Avenida Araguaia, eu aprendi a não ser vítima. Vi a fome, vi o desespero de minha mãe, vi o caos, desentendi meu pai e definitivamente descobri que para sorrir ia dar trabalho.

Andando pelo centro, dentro do ônibus lembrei-me das vezes que quase me roubaram o salário, percebi a quantidade de histórias suando ali dentro. Os ônibus são isso: um carregamento de sonhos e histórias que se esbarram sem querer estar.

Quase ninguém quer estar ali. Como várias vezes eu não quis estar. Em vários momentos desta vida eu não quis estar, mas me ausentar nunca foi uma opção. A não ser quando pensei, ou mesmo quando desejei a morte. Me ausentar nunca foi uma opção. Nem mesmo se o álcool, uma bala ou baseado me chegasse. Meu cardápio sempre foi limitado.

Olhando fixo dentro do ônibus, quis buscar histórias como a minha, quis buscar identificação. Quando moleque passava no “gás” por baixo da catraca e ia direto para o fundo, de lá podia observar tudo e ninguém me via. E na primeira vez que passei na catraca pagando passagem, tive a impressão do ônibus inteiro me olhar e então não consegui mais observar. Perdeu a graça viajar ali.

Descobri a bicicleta, descobri o trabalho e pedi para minha mãe me emancipar. Doce ilusão achar que a vida era minha. Ilusão achar que temos algo, alguém ou alguma coisa. A gente tem mesmo é só vontade. E vontade na maioria das vezes nem quer dizer grande coisa.

Andando pelo centro descobri que nem os erros são meus. Eu os cometo e como uma praga eles se propagam, e no boca a boca do capeta tudo se potencializa e ganha holofotes. São os postes.

No centro não tem essa de certo e errado. No centro o certo é tão pesado quanto o errado, e não importa, você sempre será julgado. Aí você continua e lembra que ser a vitima não é uma opção.

Que merda! Eu já machuquei gente pra diabo. Quando machucado, quis ser santo, o crucificado. Nós somos assim, aprontamos, somos aprontados, julgamos, às vezes perdoamos, nos fazemos de bons samaritanos, mártires; mas não aguentamos nem uma tarraxinha no dedo. Que dirá um prego ou cruz.

Mas somos todos Jesus, mesmo quando somos o demônio, somos Jesus nessa paixão, dor, caminho, vida, morte e ressureição de cada dia. Dentro daquele ônibus vi em cada um todos que machuquei, todos que perdi, todos que me descobriram, para quem menti, vi minha mãe, vi meu pai, vi todas as histórias que contei, inventei, fugi ou vivi.

Ao descer a 3, sentido Marginal Botafogo, passei por lugares onde fui puro e aprendi a sonhar. Onde um dia tive disciplina e aprendi o karatê. Onde aprendi e nunca mais esqueci a contar até dez em japonês.

Descendo ali vi todas as bandas daqui. As que gosto até hoje; umas que amo e admiro; outras que aprendi a gostar; outras que invejo; outras que não sei o nome, mas já ouvi; outras que não gosto, mas os caras são bons e as que fiz parte.

Cara, a gente esquece. A gente é vaidoso pra caralho e esquece que o melhor era fazer parte. Depois a gente acha que fez demais, quando ninguém saca nem o primeiro ato. Depois, mais na frente, a gente se acha experiente e velho, achando que já foi. Mas aí sempre tem o Clube da Esquina para lembrar: “Sonhos não envelhecem”.

Não. Ainda estão aí. Outras vezes mudam. Mas alguns se cansam, outros se deitam e já era. Mas andando por aqui, trombo os caras, lembro-me dos primeiros estúdios, converso com um camarada e de fato, o que é do centro não morre. Muita coisa muda e ainda vai mudar. Mas o rock vai continuar. Às vezes mais robusto, às vezes meio de lado, às vezes uns gatos pingados, mas ele é como a vida: arredio pra caralho.

Andando pelo centro, depois das 19, nos finais de semana ou feriado, o deserto se instala. E é quando o centro se cala que a poesia começa: domingo Goiânia dorme, domingo Goiânia morre. Domingo não existe ninguém. Metade rock and roll, metade amém.

No centro se aprende que os santos frequentam os botecos, que as grades de casas e apartamentos só servem para prender o mal que existe dentro do corpo ou da cabeça, e não protegem de nada. Aprende que perto de onde se come um X-salada também se consome crack. Aprende que o chorinho mistura e desagrada. Aprende que qualquer festa pode riscar a faca. Aprende que cada boca fala mais do que sente, fala e denigre como lhe é conveniente. Aprende que fecharam o J.C.A., aquele lugar onde você aprendeu a ler a vida. No centro você descobre que o capeta está na ponta da cadeia alimentar, governa o Estado e comemora suas desgraças em festas na Praça Cívica.

Voltando, indo embora do centro, subo a 85 pedindo perdão, pedindo redenção. Pensando nessa coisa, nesse sentimento, nessa palavra que define: idealismo. Pensando em como se enganam sobre a gente. Em como somos bons e devastadoramente maus. Em como não sabemos nada de porra nenhuma. Em como achamos que sabemos algo, e o que sabemos não importa para ninguém. Em como falamos, falamos, vamos falar, falamos, falamos, temos nossa verdade, falamos, falamos e não ouvimos nada. Não importa sexo, religião, classe social ou estado mental. Não ouvimos nada.

Subi a 85 comparando a vaidade dentro dos carros com a minha em achar que o caminho que escolhi é melhor que o seu. Somos retrógados, meu parceiro. Nos achamos libertários, mas na hora do amor somos proprietários. Nos achamos apartidários, mas dependendo da camiseta nos ofendemos. Nos achamos revolucionários, mas são outras pessoas que lavam os pratos. Nos achamos céticos, mas dependendo, se convir, Deus pode até fazer sentido.

Subindo a 85, lembrei “não é apenas 0,20 centavos”. Lembrei do Amarildo e outros que moravam por aqui. Lembrei das escolas, das OS’s. Mariana é logo ali. Lembrei do que fiz, do que não fiz. Lembrei de mim.

Um amigo esses dias me falou: “Esse caminho seu aí custa caro”. E qual é o valor que a gente tem? E qual o preço que dá pra pagar? E que caminho é mesmo esse? “Vou mostrando (vivendo) como sou e vou sendo como posso”.

A gente faz o que pode né? Estou achando que a gente pode mais. E tem esse caminho mais comprido mesmo, é nele que eu vou. Espero que faça algum sentido. Mas aqui quero dizer:

Perdão
Para quem é de perdoar
Desculpa
Mas eu não sei desenhar
Escrevo
A extensão
Vem do que tenho a dizer
Não importa para você
Exponho mesmo por esperança.

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